Na celebração solene de Abertura do Capítulo Geral 2010 a Ir. Lurdes Lüke proferiu o seguinte discurso:
Palavra de Abertura do Capítulo Geral 2010
Ir. Lurdes Luke
Queridas Irmãs, estimado Dom Moacir, sacerdotes, pessoas amigas, leigas/os, Mensa-geiros da Divina Providência que chegaram de diversos lugares, de perto e de longe.
Obrigada pela vossa presença significativa e amiga. Juntas/juntos vamos celebrar e nos alegrar. É Deus que nos une e reúne como uma família internacional, numa mesma comunidade de fé e de amor.
No início desta celebração festiva, com confiança na Divina Providência, com alegria e esperança, declaro aberto o 27º Capítulo Geral de nossa Congregação.
Assim, estamos iniciando nosso 27º Capítulo Geral. Já fizemos um longo caminho de preparação, nós Irmãs com leigos e leigas que atuam conosco.
Nestes cinco anos, 2005 a 2010, como Congregação Internacional, caminhamos à luz de um Horizonte; “Nós, mulheres, Irmãs da Divina Providência, queremos viver o Discipulado de Iguais no seguimento de Jesus, em comunhão com toda a Criação, a caminho da realização do Reino de Deus aqui e agora entre nós.” Este Horizonte nos impulsionou, nos questionou, nos ajudou a vivermos relações mais humanizadoras e solidárias entre nós, a partir de nós e para além de nós, pois não agimos sozinhas, mas com muitas pessoas, colaboradoras e colaboradores com os quais vivemos e com os quais realizamos a missão. O Horizonte nos desafiou a aprender umas das outras, a partir de nossas experiências pessoais e comunitárias e do mundo no qual vivemos. Sensibilizou-nos para a vida do planeta e para uma espiritualidade mais ecológica que gera vida e esperança para a “casa planetária” que é a nossa única casa, tenda e lar comum.
Acredito que “ousamos passos pequenos e corajosos em busca do novo”. Sentimo-nos confirmadas que este Horizonte necessita ainda de muito aprofundamento, muitos passos para concretizá-lo. Fizemos este caminho com esperança, olhando para a realidade e para a pessoa de Jesus e sua proposta libertadora. Ele, no seu amor incondicional pelas pessoas excluídas, rompeu fronteiras, questionou estruturas opressoras, superou preconceitos e discriminações de raça, de gênero, de cultura, situação social ou religiosa, para concretizar o Reino de Deus. Também nós não podemos deixar definhar ou perder esta paixão por Jesus e paixão pelo Reino.
Nesta caminhada congregacional, colocamo-nos com mais consciência na Tenda de Deus, Tenda da Humanidade e assumimos como frase inspiradora: „Deus desdobra o céu como toldo e o estende como tenda que sirva para morar.“ (Is 40, 22b) “Alargue o espaço de sua tenda, ligeira estenda a lona, estique as cordas, finque as estacas. Não tenha medo!” (Is 54, 2 e 4a). Esta imagem da Tenda nos ajuda a combinar abertura com firmeza. Abertura para acolher, para ampliar o espaço, esticar as cordas do amor e da solidariedade. Firmeza para fincar estacas de fé, de confiança, de coragem. Para isto, necessitamos de interiorização, de oração, de reflexão, descanso, de apoio mútuo para não sermos derrubadas ou mesmo levadas pelo vento contrário de opiniões, os ventos da moda, do consumismo, do individualismo, da desconfiança, da acomodação, da indiferença diante da dor, da fome, da vida.
Neste momento histórico, “Deus nos convida a recriar a vida, no Discipulado de Iguais, em comunhão com toda a Criação, como espaço de transformação e libertação.” Como Irmãs da Divina Providência, somos agraciadas com este convite de Deus, porém comprometidas, pois o assumimos como Tema Capitular.
“Recriar a vida como espaço de transformação e libertação” – talvez necessitamos começar conosco mesmas, no olhar sobre nosso estilo de vida, nossa maneira de nos relacionar com as pessoas, com o planeta, com o mais íntimo de nós mesmas, com a essência da Vida, com o Sagrado. Talvez nos perguntando: - somos capazes de ver, de sentir e perceber a rede de interrelacionamentos de que é feita a vida? Será que estamos vivendo conscientemente nossas vidas e direcionando nossos pensamentos, energias, palavras, dons para o sentido de mudança que queremos e sonhamos? No dizer de Mahatma Gandhi: “Temos de ser a transformação que queremos do mundo”. Nós fazemos parte dessa transformação e por isso podemos dizer que a transformação libertadora, como espaço de vida, começa em nós, no nosso círculo, na nossa tenda-casa-lar, e se abre em relação às pessoas e à Criação/meio ambiente. Nossas comunidades podem ser “espaços humanos de vida”. O desejo de aprender, num discipulado de iguais e missionário no seguimento de Jesus, é o ponto de partida; o ponto de chegada ultrapassa nossa vida, pois a perfeição está no próprio discernimento de Deus. Ele é “amigo da vida” e quer que todas as pessoas se convertam e encontrem o caminho para a vida, conforme nos fala o livro da Sabedoria. Vida para todas as pessoas foi o sonho e a missão de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Portanto, é necessário prosseguir na caminhada. O processo é irreversível. Há muita vida a ser recriada, cuidada, transformada, libertada. No mundo atual globalizado, a pobreza tem novos rostos concretos: os migrantes em todos os continentes, as vitimas da violência, os deslocados e refugiados, os enfermos de HIV e de enfermidades endêmicas, os toxico-dependentes, idosos, meninos e meninas que são vítimas da prostituição, mulheres maltratadas, vítimas da violência, da exclusão e do tráfico para a exploração sexual, grandes grupos de desempregados (as), os excluídos pelo analfabetismo tecnológico, as pessoas que vivem na rua das grandes cidades, os indígenas, agricultores sem terra, o grande número de pessoas desnutridas e famintas.
Diante desses rostos, sempre mais fortes e insistentes, não podemos ter incertezas ou indiferença, eles precisam de nós e nós precisamos deles. “Não tenham medo!”. Na força e impulso desta palavra do Deus Vivo, somos convidadas a ouvir estes clamores, a chegar mais perto de seus corações e com elas e eles, buscar libertação.
Irmãs! O que nos poderá impedir de avançar na concretização desta nossa Opção, de nosso Horizonte e do Tema Capitular? O medo das consequências? A incerteza do que vem depois? As inseguranças? A saudade do passado? A falta de liderança? A idade avançada? A redução em número? Certamente nada disso. Tudo isto pode ser um sinal providencial que nos interpela a ser fermento, profecia e a nos unir em redes com outras Congregações e grupos, a entrarmos em outras tendas. O tempo que vivemos é de aproximação, de aprofundamento, de buscas conjuntas, de solidariedade. Se permanecermos vigilantes, o Espírito vai nos ajudar a encontrar caminhos novos e nos dará coragem de sonhar e assumir os riscos destes nossos sonhos. Confiemos nas palavras de nosso Fundador Eduardo Michelis: “Quanto mais a pessoa estiver impregnada do Espírito Santo, tanto mais claro e mais profundamente verá o presente, o passado e também o futuro.”
O povo, e em especial os pobres, esperam que nós, Irmãs da Divina Providência, continuemos sendo mulheres de esperança. “Ter esperança, Dar esperança, Ser esperança” é nossa missão. Uma esperança que brota da Ressurreição de Jesus que cria novos espaços de vida e se manifesta na luta das pessoas por vida mais digna, significativa e feliz. Cada esperança que vive em nosso coração é esperança para o mundo. A esperança é profecia e faz com que tenhamos fé de que transformar é possível.
Capítulo é o momento de celebrar e reassumir a vivência do carisma e da espiritualidade com novo vigor, com audácia e na confiança de que Deus Providência caminha conosco. Permaneçamos atentas ao que o Espírito está dizendo à nossa Congregação hoje.
Junto com Ir. Ursula, Ir. Leni e Ir.Teresa desejo uma alegre celebração e concluo rezando a última frase de nossa oração capitular: Ó Deus “abençoa as nossas decisões e nosso engajamento na defesa da vida. Dá-nos a graça de nos encorajar mutuamente, para alargar o espaço de nosso coração e nos engajarmos com todas as nossas possibilidades, para que o teu Reino se concretize sempre mais em nosso meio. Amém!”.